PESQUISE NESTE BLOG

Carregando...

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Resumo 12: Sofistas, os Filósofos Pedagogos



Ainda no período clássico, os pensadores gregos começaram a dar menos importância sobre as discussões referentes à natureza, isto é, começaram a desenvolver um enfoque mais voltado para a questão Antropológica, abrangendo a Moral e a Política.

É nesta época que viveram os Sofistas, dentre os mais famosos destacam-se: Protágoras, de Abdera (485-411 a. C.); Górgias, de Leôncio, na Sicília (485-380 a. C.); Híppias, de Elis; e ainda, Trasímaco, Pródico, Hipódamos, entre outros.
Sofistas e Platão. Disponível em: jornaldefilosofia-diriodeaula.blogspot.com
Etimologicamente, a palavra Sofista, vem de Sofhos, que significa “Sábio”, ou melhor, “Professor de Sabedoria”.

De início, vários profissionais eram “sofistas”: carpinteiros, charreteiros, oleiros e poetas. Quando o domínio de uma técnica era reconhecido por todos, o profissional era dito “sofista”, desde as atividades artesanais aos trabalhos de criação artística. O termo era, portanto, um elogio. Mas, na verdade, os sofistas eram professores viajantes que, por determinado preço, vendiam ensinamentos práticos de filosofia. Levando em consideração os interesses dos alunos, davam aulas de eloquência e sagacidade mental. Ensinavam conhecimentos úteis para o sucesso dos negócios públicos e privados.

O êxito desses tutores foi extraordinário. Passaram a ser então designados de sofistas, sábios capazes de elaborar discursos fascinantes, com intenso poder de persuasão. Por outro lado, foram recebidos com hostilidade e desconfiança pelos partidários do antigo regime aristocrático e conservador. Quando Atenas se envolveu na guerra do Peloponeso, os sofistas foram responsabilizados pela decadência moral e política da cidade. O julgamento de Sócrates ocorreu neste clima de acusação e ressentimento

E após tantos episódios, ganhou um novo sentido, este era pejorativo, pois receberam o nome de “homens que empregam sofismas”, isto quer dizer, alguém que usa o raciocínio com má-fé, com a intenção de enganar, ou seja com a sutileza de sofista. Isto se deve a má interpretação que foi feita deles, mais que isso, da atividade que eles se dispuseram a realizar de uma maneira que tornou deturpada a visão sobre seus ofícios.

Em princípio foi a influencia da enorme diversidade teórica entre os pensadores reunidos sob a designação de sofistas; talvez o fato de serem sábios pedagogos.  E também vinham de todas as partes para realizarem o ensino itinerante pelos locais em que passavam, sem se fixarem em lugar algum.


Vindos de toda a parte do mundo grego, os sofistas (mestres de sabedoria), dedicaram-se a fazer conferências  e a dar aulas nas várias cidades-estado, sem se fixarem em nenhuma. Atenas é, todavia a cidade onde mais afluem, onde no século V a.C. adquiriram um enorme prestígio. Aproveitaram as ocasiões em que existiam grandes aglomerações de cidadãos, para exibirem os seus dotes retóricos e saberes, ensinando nomeadamente a arte da retórica. O seu ensino era, portanto, itinerante, mas também remunerado.

O principal crítico dos Sofistas foi, sem dúvida, Sócrates. Nascido em Atenas, Sócrates (469-399 a.C.) é tradicionalmente considerado um marco divisório na história da filosofia grega. Por isso, os filósofos que o antecederam são chamados pré-socráticos e os que o sucederam de pós-socráticos. O próprio Sócrates não deixou nada escrito, e o que se sabe dele e de seu pensamento vem dos textos de seus discípulos e de seus adversários.

O estilo de vida de Sócrates assemelhava-se ao dos sofistas, embora não vendesse seus ensinamentos. Desenvolvia o saber filosófico em praças públicas, conversando com os jovens, sempre dando demonstrações de que era preciso unir a vida concreta ao pensamento. Unir o saber ao fazer. Tinha em mente o exercício de fazer nascer nas pessoas a luz da sabedoria, quando instigava a sair da ignorância, já os sofistas, vendiam a possibilidade de tornar-se mais sábio. Então, devido o motivo de os sofistas cobrarem pelas aulas, Sócrates chegou a acusa-los de exercer uma atividade de prostituição.


DIFERENÇAS ENTRE SÓCRATES E OS SOFISTAS
- Sofista era um professor ambulante. Sócrates era alguém ligado aos destinos de sua cidade.
- O sofista cobrava para ensinar. Sócrates viveu sua vida e essa se confundiu com a vida filosófica: “Filosofar não é profissão, é atividade do homem livre”.

- O sofista “sabia tudo”, e transmitia um saber pronto, sem crítica (que Platão identifica como uma mercadoria, que o sofista exibe e vende). Sócrates dizia nada saber e, colocando-se no nível de seu interlocutor, dirigia uma aventura dialética em busca da verdade, que está no interior de cada um.

- O sofista fazia Retórica. Sócrates fazia Dialética. Na retórica o ouvinte é levado por uma enxurrada de palavras que, se adequadamente compostas, persuadem sem transmitir conhecimento algum. Na dialética, que opera por perguntas e respostas, a pesquisa procede passo a passo, e não é possível ir adiante sem deixar esclarecido o que ficou para trás. 
- O sofista refutava por refutar, para ganhar a disputa verbal. Sócrates refutava para purificar a alma de sua ignorância


CARACTERÍSTICAS GERAIS DOS SOFISTAS

A primeira dificuldade em se falar dos sofistas, em geral decorre do fato de não constituírem uma escola filosófica como os Pitagóricos e os Platônicos. Como veremos adiante, os sofistas seguem direções variadas e até mesmo opostas. Agrupá-los pelo que têm em comum, serve apenas para diferenciá-los dos filósofos anteriores, notadamente os pré-socráticos e suas preocupações com o mundo físico. Os sofistas marcaram a passagem do período cosmológico para o período antropológico, centrado em questões linguísticas, gramaticais, epistemológicas e jurídicas. As características gerais dos sofistas, isto é, as posições que eles defendiam, são as seguintes:

a) Relativismo – Tudo que existe é temporário, mutável e plural. Tudo muda, as essências das coisas são variáveis e contingentes.

b) Subjetivismo – Não existe verdade objetiva. As coisas são como aparecem a cada um.

c) Ceticismo – Não podemos conhecer coisa alguma com certeza absoluta. O conhecimento humano é limitado às aparências.

d) Indiferentismo moral e religioso – Se as coisas são como parecem a cada um, não há nada que seja bom ou mau em si mesmo, pois não existe uma norma transcendente de conduta. Em matéria de crença religiosa, devemos ser indiferentes, isto é, tanto faz acatar estes ou aqueles deuses. Alguns sofistas foram acusados, em consequência desta postura, de ateísmo.

e) Convencionalismo jurídico – Acentuam a contraposição entre lei e natureza (nómos – phýsis). Não existem leis imutáveis, já que não possuem qualquer fundamento na natureza e nem foram estabelecidas pelos deuses, mas são simples convenções dos homens para poderem viver em sociedade.

f) Oportunismo político – Se não há nada justo e injusto em si mesmo, todos os meios são bons para se atingir os fins que cada um se propõe. O bom resultado justifica os meios empregados para consegui-lo. A eloquência é a arte da persuasão e pode ser empregada indistintamente para o bem e para o mal.

g) Utilitarismo – Mais do que servir ao Estado, os sofistas ensinavam a empregar as habilidades retóricas a serviço dos interesses particulares, manipulando, se necessário, os sentimentos e as paixões.

h) Frivolidade intelectual – Mais do que autênticos filósofos, os sofistas eram prestidigitadores intelectuais que encobriam o vazio do seu pensamento com uma “pirotecnia verbal” fascinante. Tinham uma confiança ilimitada no poder da palavra, na capacidade do discurso.

i) Venalidade – Ao cobrarem por suas lições, os sofistas sofreram a crítica mais severa por parte dos atenienses, que não aceitavam fazer da atividade intelectual uma forma de negócio. Platão qualificava os sofistas de “mercadores ambulantes de guloseimas da alma”.

j) Humanismo – Ao centrar seus interesses nos problemas humanos, os sofistas podem ser comparados aos humanistas da renascença (século XV), preocupados com os problemas práticos do homem político, da natureza humana inserida na pólis e na vida do Estado.


CONTRIBUIÇÕES DOS SOFISTAS


É importante destacar os grandes feitos que estes filósofos andarilhos nos deixaram: grande contribuição na sistematização do ensino; a formação de um currículo de ensino, com ênfase para a Gramática, a Retórica e a Dialética; além disso, desenvolveram a Aritmética, a Geometria, a Astronomia e a Música.
Destaquemos então suas boas contribuições:
Na Educação: Apesar da diversidade dos métodos de educação dos sofistas, estes podem ser agrupados em dois tipos fundamentais:

Cultura Geral. Este ensino compreendia o estudo da Aritmética, Geometria, Astronomia e Música. Estas matérias remontavam a um modelo de educação Pitagórico, vindo a constituir mais tarde, na Idade Média, o célebre Quadrivium das sete Artes Liberais.

Formação Política. Este ensino orientava-se para uma visão mais prática, procurando corresponder às exigências estritas da atividade política. Constava das seguintes disciplinas: Gramática, Dialética e Retórica. A arte da dialética transforma-se numa arte de manipulação de ideias, através da qual o orador procura defender uma dada posição, mesmo que ela fosse a pior de todas. A retórica era a arte de persuadir, independentemente das razões adotadas. Levado até ao exagero, este tipo de ensino, desacreditará os sofistas na Antiguidade Clássica.

Na Cultura: Os sofistas defendiam abertamente o valor formativo da cultura, que não se resume à soma de noções, nem tão pouco ao processo da sua aquisição. A sua educação visa à formação do homem como um ser concreto, membro de um povo e parte de um dado ambiente social. A educação torna-se a segunda natureza do homem. Deste modo, os sofistas afastavam-se da tradição aristocrática, ligada à afirmação de fatores inatos. Os sofistas manifestavam frequentemente uma visão otimista do homem, segundo a qual este possui uma inclinação natural para o bem. Protágoras foi um defensor desta posição.

Quanto ao Relativismo: Constatando a influência dos fatores sociais na formação dos homens e na modelação dos seus comportamentos, a existência de uma pluralidade de culturas e modos de pensar, os sofistas acabavam por defender a relatividade de todos os conhecimentos e dos valores, negando a sua universalidade. Partindo deste princípio, acabam por afirmar a identidade entre o verdadeiro e o falso.

Vejamos: "Se todas as opiniões e todas as aparências são verdadeiras, conclui-se necessariamente que cada uma é verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Visto que, frequentemente, surgem, entre os homens, opiniões contrárias, e cremos que se engana quem não pensa como nós, é óbvio que existe e não existe ao mesmo tempo a mesma coisa. Admitindo isto, deve-se também admitir que todas as opiniões são verdadeiras. (...) Se as coisas são como afirma Protágoras, será verdade o que quer que se diga".

Quanto a Convenção: Partindo de uma concepção relativista do conhecimento, negam igualmente a universalidade da Verdade. Esta não passa para alguns sofistas de uma convenção. "Pois que tais coisas parecem justas e belas a cada cidade, são-no também para ela, enquanto creia em tais".

Outros ainda, partindo da ideia da Lei como convenção, sustentam que esta provoca desigualdades entre os homens, iguais por natureza: "Ó, homens aqui presentes! Creio-vos a todos unidos parentes e concidadãos, não por lei, porque o semelhante é por natureza perante do seu semelhante. A lei, como tirana dos homens, em muitas coisas emprega a violência contra a natureza". Discurso de Hípias, em Platão, Protágoras.

Quanto a Retórica: Alheios às tradições, os sofistas mostram-se dispostos a discutirem todos os assuntos. Atribuem à linguagem uma importância fundamental, mas esta não passa de uma convenção. As palavras são, com frequência, destituídas do seu sentido corrente, e são usadas como instrumentos de sugestão e persuasão para convencerem os seus interlocutores. Recorrem à ambiguidade das palavras, exageram na aplicação dos três princípios lógicos, para numa cadeia de deduções e sentidos ambíguos, levarem os seus interlocutores a desdizerem-se.

   Na verdade, os mais dedicados, buscaram aperfeiçoar os instrumentos da razão, isto é, a coerência e o rigor da argumentação, enfim uma forma de Filosofia mais prática e descentralizada.



PRINCIPAIS SOFISTAS

 Protágoras (490-420a.C.)

O mais eminente dos sofistas foi Protágoras, tratado com respeito por Platão no diálogo que leva seu nome. Atribui-se a ele, o primeiro estudo sistemático de gramática, distinguindo os gêneros masculino, feminino e neutro e as partes da oração em substantivo, adjetivo e verbo. Em retórica distinguiu as partes componentes do discurso: preâmbulo, disposição, exposição, discussão, refutação e conclusão. Ensinou durante quarenta anos e tornou-se muito rico, pois cobrava caro por suas lições. Protágoras defendia o relativismo do conhecimento, através do famoso dito “O homem é a medida de todas as coisas”. Se não há uma razão ou um bem imutável, se todas as percepções são subjetivas, a habilidade retórica deve prevalecer para que meu argumento seja vencedor. A posição relativista conduz ao dilema da verdade e do discurso verdadeiro: vence a discussão quem tem razão ou tem razão quem vence a discussão?



Górgias (485-380a.C.)

Górgias é famoso por seu niilismo exacerbado. Levando as teses relativistas ao extremo, nega a possibilidade de qualquer conhecimento, seja do espaço e do tempo, das coisas particulares ou mesmo do ser em geral. Conserva-se de Górgias os três princípios: a) Nada existe (o ser e o não-ser não existem); b) Se algo existisse, não poderia ser conhecido, ou seja, seria incompreensível para nós; c) Se algo existe e pode ser conhecido, não pode o conhecimento ser comunicado a alguém (este conhecimento seria totalmente subjetivo). É possível que as teses de Górgias fossem um exercício de retórica, para provocar os oponentes ou exercitar os alunos. Um jogo dialético para questionar as afirmações dogmáticas ou pretensamente absolutas de muitos filósofos. O fato é que ambos, Protágoras e Górgias, compartilham das mesmas teses céticas e reduzem o conhecimento ao jogo das aparências.

Outros sofistas de destaque foram Hípias, Pródicos, Cálicles, Crítias e Antifonte. Chegaram até nós alguns fragmentos de suas obras e referências às suas façanhas de oratória. 


Antifonte

Antifonte de Atenas (480-411 a.C.) é uma figura controversa. Menciona-se na antiguidade um Antifonte famoso pela oratória e que teria sido o primeiro logógrafo, ou seja, o primeiro a escrever discursos sob encomenda. Do orador restam discursos importantes. Não se tem certeza se o orador e o sofista são os mesmos. Dúvidas históricas à parte, Antifonte, o Sofista representa, melhor que todos, a contraposição entre a natureza (physis), na qual se baseia o direito natural, considerado inato e absoluto, e as leis da cidade (nómos), nas quais se apoia o direito positivo, puramente convencional e imposto pela força ou pela necessidade. Muitas leis e costumes não escritos são contrários à natureza, diz Antifonte, como honrar aos nascidos de berço nobre e desprezar os comuns. Todos os homens são iguais por natureza, sejam gregos ou bárbaros (não gregos).

É portanto, de grande relevância o trabalho que os Sofistas exerceram na Antiguidade, de maneira que deixaram um importante legado para a humanidade e, apesar das críticas adversas é possível sim, tirar grande proveito da Filosofia Sofista, isto é, do período em que eles atuaram e, certamente, contribuíram, tão mais do que na atualidade.

Protágoras, de Abdera. Disponível em: www.aafa.org.ar
Górgias, Imagem retirada de: 3etardewilebaldoaguiar-filosofia.blogspot.com
Antifonte. Imagem extraída de; www.lanacion.com.ar
Górgias. Imagem copiada de: www.brasilescola.com

REFERÊNCIAS
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à Filosofia. .—2 ed. rev. atual. – São Paulo: Moderna, 1993, 395 p.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ed. Ática, 1995.

COTRIM, Gilberto. Fundamentos da FilosofiaSer, Saber e Fazer. São Paulo: Ed. Saraiva, 1997.

Filosofia e Direito no Pensamento Antigo. Disponível em: http// www.reinerio.hpg.com.br/sofistas.htm. Acesso em 21 de Abril de 2007.

OLIVEIRA; Cristina G. M. de. Os Sofistas e o período Socrático – maiêutica e ironia. Disponível em: http// www.filosofiavirtual.pro.br/socrates.htm. Acesso em 21 de Abril de 2007.

Sofistas. Disponível em: http// www.afilosofia.no.sapo.pt/sofistas.htm. Acesso em 21 de Abril de 2007.