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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Comentário 1 - Cap. 3 "Um Teto Todo Seu", de Virgínia Woolf



COMENTANDO: CAPÍTULO TRÊS DE UM TETO TODO SEU

A autora, Woolf (2004), inicia enfatizando que “as mulheres são mais pobres do que os homens” (p. 48), por causa de uns ou de outros motivos; percebemos que, quando neste seu pensamento ela busca expressar (imediatamente) aquilo que Bourdieu (1999) chama de cultura androcêntrica, uma espécie de maneira social que se impõe sobre os indivíduos, julgando-os e separando-os mediante uma divisão sexual do trabalho de produção e de reprodução biológica, concedendo aos homens primazia seja nas questões de capacidades práticas ou intelectuais.
Disponível em: doidivana.wordpress.com
A autora procura fazer uma análise histórica da mulher, especialmente na Inglaterra e a partir do século XVI e observa que, em termos de literatura e das artes como um todo, a mulher esteve sempre aquém dessas possibilidades e que, por mais que algumas personagens tenham se destacado e que a literatura tenha reservado partes importantes dedicando-se a descrever os feitos dessas singulares mulheres (tais como Cleópatra, Antígona, Rosalinda etc.), isso não passou de um mero capítulo, porque na realidade elas eram surradas e trancafiadas, como animais sem alma, indignas de pensar suas vidas e de estabelecer projetos e critérios; pior,  pensar intelectualmente e produzir ou escrever artisticamente, pois eram afastadas do mundo da aprendizagem e da possibilidade de emancipação, sendo apenas uma mera propriedade do marido. E assim, estando envolvidas por uma violência simbólica, tal como escreveu Bourdieu (1999), seja esta exercida pelo pai, pelo irmão e precocemente pelo esposo, as mulheres acabam por aplicar a toda realidade que lhe envolve as relações de poder em que estão inseridas, reproduzindo e justificando as estruturas de dominação, uma vez que são moldadas e “orientadas” para tal ato, seja pela ação dos homens, das instituições, das famílias, das Igrejas, das Escolas, do Estado, etc.
Situações de afastamento das mulheres das ações mais intelectuais e artísticas perduraram, então, até os idos do século XVIII, de acordo com Woolf, porque não se encontram em meio aos inúmeros escritos de cunho masculino as contribuições femininas, concebidas com o mesmo valor atribuído as obras do gênero masculino; e mesmo que se faça um trabalho nas consciências individuais das mulheres, tendência exercida por movimentos sociais, por exemplo, não implica numa mudança de postura da sociedade em relação aos gêneros e o consequente privilégio de um sobre o outro, porque, de acordo com Bourdieu (1999) a violência simbólica é exercida de tal maneira que se torna algo natural (é normal que as capacidades humanas sejam divididas, sendo umas para homens outras menos importantes para mulheres), pois essa violência simbólica não é exercida “na lógica pura das consciências cognoscentes, mas através dos esquemas de percepção, de avaliação e de ação que são constitutivos dos habitus e que fundamentam, aquém das decisões e das consciências e dos controles da vontade, uma relação de conhecimento profundamente obscura a ela mesma” (p. 49/50), isto é, há uma lógica de dominação espontânea e extorquida mantida pela ordem social.
A autora, por sua vez, chega a dizer que uma mulher talentosa no século XVI, similarmente como foi Shakespeare, estaria condenada a viver da forma mais terrível possível, chegando à loucura e ao suicídio, pois não suportaria a contrariedade, a tortura e a dilaceração de suas potencialidades, somente por causa de sua condição de gênero feminino. Restavam as mulheres, então, a figura do masculino para lhe garantir a dignidade humana e de capacidades ou esconder-se atrás do anonimato, caso quisesse enveredar pelo caminho da produção artístico-literária, por exemplo; esse pensamento masculino elitizado e dominante que não consegue esperar nada produzido intelectualmente, advindo das mulheres, perdura – de acordo com Woolf (2004) até o século XIX, distanciado a mulher não só das questões artísticas, mas também das questões políticas, porque a sociedade ainda não é democrática suficientemente para acolher todo e qualquer exposto sistematizado de produção, independentemente de qual segmento social advém; torna-se necessário, portanto, conforme Bourdieu (1999) “a transformação radical das condições sociais de produção das tendências que levam os dominados a adotar, sobre os dominantes e sobre si mesmos, o próprio ponto de vista dos dominantes (...) num ato que se efetiva aquém das consciências e da vontade” (p. 54).

JaloNunes.
Vigínia Woolf. Imagem extraída de: www.themakeupgallery.info

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

BOURDIEU, Pierre. Uma Imagem Ampliada. In.: A dominação masculina. (tradução: Maria Helena Kühner) – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. Capítulo 1.


WOOLF, Virgínia. Capítulo Três. In: Um teto todo seu. (tradução: Vera Ribeiro) – 2. ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.