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domingo, 9 de dezembro de 2012

Literatura & Pintura

Em 2011 eu participei de um curso de literatura no SESC Maceió, que foi de uma utilidade imensurável!

Um grupo eclético, mas fiel a sua facilitadora, viveu e fez literatura (crônicas, contos, poesias, romances parciais etc.). Tivemos também a oportunidade de viver a arte de outra maneira: enquanto criação de objetos (telas, artesanato), e porque não dizer, uma boa comida, ou um bom papo (e uma boa dose de amizade e carinho).

Dentre as tantas atividades literárias, a falicitadora me sugeriu pintar telas em atenção à leitura de "A Normalista", de Adolfo Caminha.

Tal tela foi exposta e serviu para uma atividade específica: que se escrevesse sobre as sensações e mensagens adquiridas por cada um, através da pintura.

Hoje fui verificar os textos feitos pelos amigos e amigas, mas não localizei todos: não sei se os guardei mal, ou se todos não chegaram até mim

Abaixo reescrevo duas visões, apresentadas por duas fantásticas mulheres, dentre tantas que compunham aquele inesquecível curso de literatura (de construção de vida)!
Antes eu dizia:

Pintar uma tela sobre A Normalista não foi simples. Eu – no auge da minha ingenuidade – pensava que seria fácil. Inicialmente pensei que poderia pintar 5 telas. Com o passar das semanas percebi que era inviável e reduzi o projeto para 3 telas. Eu bem que consegui rabiscar 3 desenhos, mas não pude concretizá-los em pintura a óleo sobre tela. E por fim compus 1.

Lembro, então, que quando cheguei por volta da página 21 do livro já tinha 3 desenhos; ao passo em que comecei a pintar. Algumas passagens dos 3 primeiros capítulos do livro me estimularam a produzir os 3 desenhos. No capítulo II, página 18 diz: “A seca dizimava populações inteiras no sertão. Famílias sucumbiam de fome e de peste, castigadas por um sol de brasa. Centenas de foragidos, arrastando os esqueletos seminus, cruzavam-se dia e noite no areal incandescente dos caminhos – abantesmas da desgraça gemendo preces ao Deus dos cristãos, numa voz rouquenha, quase soluçada. Era um horror de misérias e aflições”. Na página 19 afirma: “As manhãs sucediam-se cada vez mais tépidas, sem pingo de água, uma aragem leve, de cemitério, arrepiando a folhagem do arvoredo. Um céu muito alto, varrido, monótono, indecifrável como um dogma”. E na página 20 escreve-se: “Os açudes estorricavam mostrando os leitos gretados pelo sol, duros como pedra; juritis encandeadas iam espapaçar ofegantes no chão, defronte da casa, cascavéis chocalhavam no alpendre, ocultas, invisíveis, e todas as coisas tinham um aspecto desolado e lúgubre que se comunicava às criaturas”. Na página seguinte: “(...) um retirante (...), no areal quente, ao meio-dia em ponto, morto, e completamente nu, com os olhos já comidos pelos urubus, os intestinos fora, devorados pelas varejeiras... Que feio aquilo”!

É isso... Longe de querer representar o livro nesta tela, mesmo porque isso é impossível, aqui está um pedaço do livro, algumas passagens que, enquanto eu as lia, me estimularam certa criatividade.
"Mesa Posta" (do Sertanejo) - a partir do romance naturalista "A Normalista", do escritor cearense Adolfo Caminha.
Eis as 2 versões 'observatórias' que me referi anteriormente:
          
"O sol segue seu caminho poente atrás da serra desnuda, aquecendo fracamente as aves que se aventuram em seus últimos voos diários. A terra castigada pela seca é craquelada. A aridez é evidente sobre toda a terra que se revela inóspita. Caveiras variadas revelam que homens e animais passaram por ali, e, objetos em abandono nos dizem da inutilidade de se levar bagagem em determinadas viagens. Mas há vida e colorido em meio a tanta desolação.

A “cobra caminho” lá está abrindo-se em ilha de resíduo de vitalidade. É um oásis de cor, vida e carne agonizante sobrevivendo das últimas lágrimas, frutos de palmeiras que já não dão frutos, mas que expelem os últimos resquícios de suas entranhas testemunhados por olhos atônitos que talvez já nada vejam além do seu final próximo, consequência da digestão do animal que seguirá seu caminho, fortalecida, florescente e viva em meio a tanta desolação. Um pato, será talvez seu próximo alimento".

(Aca.)

*****
"Seus olhos amanhecem secos como a terra que se estende a perder de vista em sua frente. Ardem como o tórrido sol que impõe inclemente castigo.
Vê deslizar em sua frente, lenta como o passar dos dias, a enorme jiboia que nos últimos tempos disputa com ele o que é passível de se chamar alimento.
Vê que por ter ela despertado mais cedo, já abocanhou o cacto recém brotado, sua esperança de saciar a sede e a fome de vários dias.
Vê que tudo a sua volta é seco e retorcido, nada parece ter função. Chaleira e talheres habitam o mesmo território que carcaças.
Retorcido também se sente ele, corpo e alma exauridos.
Pergunta-se de que servem seus pés se já não tem para onde andar.
De que servem suas ásperas mãos se já não há trabalho e nem mesmo alguém para tocar.
E a boca? Seca, calada, há dias sem sentir nenhum sabor e sem expressar nenhum saber.
Vivos, por ali, só ele, a jiboia e um urubu.
Por um instante tem a impressão de avistar um pato nadando em um azul lago que corre às suas costas.
A miragem lhe faz lembrar que dos três, apenas ele é capaz de sonhar e imaginar.
O pensamento lhe devolve a humanidade.
E então ele se sente superior a tudo e a todos".


(Gia.)
Eu aguardo seu comentário, (caro leitor e internauta, amigo e difusor de conhecimentos) - por meio de comentários, ou por e-mail -  sobre o romance, a tela e as escritas. Obrigado.

CAMINHA, Adolfo. A Normalista. São Paulo: Editora Escala (Coleção Grandes Mestres da Literatura Brasileira, nº 33).