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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Conto: Beijo Sonhado

Conto premiado no evento: IV Concurso Prosa e Verso Bezerra e Silva, na categoria Prosa; realizado pela Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes - APALCA; em 2010; a classificação foi: 1º Lugar. 

Estávamos eu e Sula caminhando pelas estreitas ruas daquela bela capital do mundo, tão antiga quanto à linguagem em Português, do Brasil, mais que isso, anterior ao povo brasileiro miscigenado.
Eram bem estreitas aquelas ruas, mas quem as estreitava ainda mais eram os prédios antiquíssimos e com os mais uniformes e ao mesmo tempo disformes detalhes, cores e adornos.
Andávamos em busca de aventuras! Uma “balada”, certamente, que oferecesse luzes e música eletrônica, bebidas e fumaça no ar, “suingue” e linguagem apenas corporal.
Adentramos a um espaço grande, cuja fachada retangular deixava de ser vista céu acima, parecia, perante aos nossos meros tamanhos, que ia além das nuvens.
As ruas estreitas e os amontoados de prédios e pousadas já haviam ficado para trás, durante nosso trajeto. Era como se, num passe de mágica, estivéssemos saído do contexto urbano, e adentrado a uma pequena área pouco urbanizada e fora do complexo urbano citadino e intrincado.
Tratava-se de uma enorme boate, onde as pessoas esperneavam-se de alegria, em seus mais escuros e profundos porões.
Empurramos uma porta pesada e que de tão grande abria-se em duas partes.
No balcão, ao lado esquerdo da gente, encontrava-se um jovem com comportamentos típicos de um balconista noturno e a expressão de pouca conversa. Sula, como sempre mais simpática e extrovertida do que eu, adiantou-se a mim e pediu as devidas informações básicas para quem quer adentrar a um ambiente desses.
O balconista, estranhamente reagiu, e saindo dos limites internos do balcão, veio para o vão que se acabava numa escuridão plena e profunda e a nossa frente – de forma bem sensual – começou a baixar sua calça de jeans.
Nós dois indagamos sobre o que significava aquilo e ele verbalizou somente isto: - “não é isso que querem”?
Fizemos “caras e bocas” e nos viramos em direção à porta de saída. Ele, já bravamente, nos interceptou e nós, nos livramos dele instantaneamente e saímos em passos rápidos.
Quando adiantávamos alguns passos para a área externa, percebemos que a cidade estava, de verdade, bem longe de nós. Como poderíamos ali estar, sem que nos déssemos conta que nos afastávamos tanto da cidade?
Ele escancarou as grandes portas de madeira com muita facilidade e eu sugeri que Sula corresse em direção ao urbano. Fechei os punhos, pois queria proteger a “fragilidade” de uma fêmea. Percebi, porém, que havia um ferimento sem motivos em meus dedos, o que me impediu de dar-lhe socos, como qualquer homem faria. Então fui ainda um pouco racional e interceptei seu avanço sobre nós e especialmente sobre a Sula.
No impulso dos solavancos eu dei-lhe muitas tapas no rosto com a palma da minha mão e o empurrei em direção a um carro branco que ali estava estacionado, juntamente com tantos outros.
Sula já corria e eu demorei a acompanhá-la. Percebi também que atrás de nós já corriam muitos rapazes, gritando freneticamente.
Consegui pegar a mão de Sula e passei-lhe algumas informações: - “está vendo aquela pequena moita à frente”? Ela deu sinal que sim. - “Então, ao chegarmos perto dela, adentre-a; saia escorregando por entre as plantas rasteiras e suba naquela árvore que há mais à frente; amanhã, antes que o Sol saía, vá para alguma daquelas árvores que existem ainda mais à frente; ver-nos-emos lá, logo cedo”! “Certo”? - “Sim”, bocejou Sula.
Já estávamos quase ao lado da dita moita e ela se jogou para se esconder, como combinado. Passei a correr em frente, mais pelo lado das plantas, para que desse a impressão que Sula continuava a correr comigo e fazia gestos com o braço de quem puxa pela mão de alguém já cansado. As plantas, do meu lado esquerdo, dificultavam a incidência da luz do luar e impossibilitava que esta descobrisse meu segredo, isto é, Sula já não corria comigo!
Daí então, eu continuei a correr e parecia não ter fim aquele bosque forjado. Um momento de transe me tomou e, quando me dei conta, estava de pé e já era dia; encontrava-me embaixo de uma árvore, entre tantas, e Sula sentada num galho acima de minha cabeça.
A beleza feminina é ainda mais perfeita quando vista de baixo. Olhei com firmeza, pois queria guardar em minha mente aquela “fotografia” que fiz.
Falei para ela que já era hora de descer e assegurei isso com carinho e proteção. Ela desceu escorregando sobre meu corpo e minha pele leu todos os segredos do seu corpo e eu aproveitei cada “onda” que em mim roçou e eu, então, mapeei todo o seu corpo.
O olhar assustado a deixava ainda mais frágil e sensual. Então nós nos abraçamos, pois antes de tudo havíamos sofrido uma perseguição e estávamos bem.
Encostei meus lábios sedentos de paixão bem perto do ouvido dela e gostaria de dizer-lhe algo que envolvesse ou descrevesse nossa aventura. Mas calei-me! E voltei-me para sua fronte. Olhei nos seus olhos e ela nos meus. Uma vontade brutal e incontrolável de tocar seus lábios dominou a mim e a ela também. Beijamo-nos, foi um beijo de sonho, porém, mais real do que tudo aquilo que nos rodeava.
Ainda estávamos num local intermédio, entre aquela boate louca e a cidade grande. Precisávamos chegar a esta última.
Por fim, a cidade grande já não mais existia. Era sim uma cidade! Minha cidade natal, pequena e nós caminhávamos por suas ruas, ainda sem pavimentação.
Eu levava-a ao meu lado, como minha namorada. Nem mesmo o sufoco e as sujeiras do campo noturno, tiraram sua beleza e seu brilho.
Quando me dei conta da realidade, percebi que estava – de verdade – na cidade grande, na Capital de um País Europeu, mas com o pensamento em minha humilde cidade da América Latina, especificamente da América do Sul. Era por volta de três e meia da tarde, perto do fim do ano, caía granizo em Lisboa, Portugal, e eu precisava tirar as roupas da máquina de lavar, e colocá-las na secadora de roupas.

JaloNunes