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sábado, 8 de outubro de 2011

Conto: O Comedor de Madrugadas

'Entre laços e relações...
...desarmoniosas'.
Conto premiado no evento: III Concurso Prosa e Verso Adalberon Cavalcanti Lins, na categoria Prosa; realizado pela Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes - APALCA; em 2008.

No princípio, o céu e a terra eram extremamente ligados, ainda mais que hoje em dia, por seres, chamados na atualidade, de sem matéria e/ou sobrenaturais.  Essa ligação dava-se devido ao apelo que era feito a tais seres, sendo eles, portanto, sempre requisitados para fazerem parte do cotidiano solitário dos humanos. Esses humanos, terráqueos, de uma fragilidade extrema quanto ao espírito, isto é - a alma - sentiam-se e ainda sentem-se mais amparados quando se submetem a força ou a “proteção” dos elementos sobrenaturais, sejam eles deuses, demônios, ou até seres que hoje em dia podemos chamar mitológicos.
No princípio, após a decisão de um deus supremo, as noites e os dias eram extremamente divididos, havia, portanto, uma forte ruptura, um decepamento profundo e decisivo entre noite e dia. Este último era desfrutado pelos homens e mulheres vivos e todos os demais seres viventes, sendo que os humanos tinham a capacidade e a necessidade de servir frequentemente aos seres espirituais.
O dia propiciava a criação de animais, o cultivo de vegetais, a convivência direta ou indireta entre seres humanos, enfim, a busca pela sobrevivência acontecia desde o amanhecer até o momento em que o Sol começava a se “esconder”. Este era, com isso, representante direto da fruição da vida e protetor incondicional dela. Por isso, os “dias sem Sol ou de pouco Sol” eram entendidos como um avanço do noturno sobre o dia, uma extensão gulosa e mesquinha, além de amedrontadora, da noite. E se alguém tivesse pecado contra os deuses, por exemplo, isto era entendido como uma ferrenha punição e logo se procurava corrigir o erro. Logo, estes dias extremamente nublados eram vistos como uma comichão da noite sobre o dia, uma conquista do anoitecer escuro sobre a luz vital.
Se o dia era refúgio e reinação dos seres humanos, animais e demais seres vivos, por outro lado a noite era, não refúgio, mas, castigo ou também “privilégio” dos seres sobrenaturais, não humanos, desencarnados. Alguns, ou talvez quase todos, decapitados ou excluídos do dia, da vida, outros, mais poderosos vindos de lugares até inimagináveis.  Porém, os humanos, de acordo com as experiências, se incumbiam de classificar tais espíritos e dar-lhes as devidas importâncias ou desprezos extremos.
Os não humanos eram atemporais e não respeitavam limites ou regras, eram então, capazes de ultrapassar barreiras enormes e profundas, com exceção daquela que leva ao “Objetivo Maior” e proporciona eternidade e liberdade plena.
Por esses e outros motivos, antigamente os seres humanos não ousavam ultrapassar os limites do dia para fazer coisa alguma. O Pôr - do - sol representava um fechamento, um encerramento em todas as atividades humanas. Guardados em casa ou qualquer outra espécie de moradia, esperavam apenas o dia seguinte para recomeçar sempre.
Porém, tudo sofre transmutação e as coisas mudaram com o passar do tempo e quanto ao dia e a noite não foi diferente. Apareceram outras formas de viver, de acumular bens, de inventar máquinas, utensílios e “objetos essenciais”, armas, formas de proteção e uma infinidade de outras conquistas e descobertas. Os humanos começaram a forjar outros “valores”, inclusive desintegradores dos tradicionais e a burlar certas regras. No “auge” de suas civilizações perderam quase todos os valores e se entregaram as tecnologias, desrespeitaram as religiões, os credos, a própria família, a consideração a si mesmo e aos demais seres humanos ou não, animais ou plantas, enfim, a todo o Universo.
Não bastasse tudo isto e muito mais, os humanos ultrapassaram os limites existentes entre dia e noite, avançaram sobre o Pôr – do - Sol e descobriram a vida em meio à escuridão da noite artificialmente iluminada. Possibilitaram, com isso, uma mistura ainda maior entre o espaço do humano e o espaço das criaturas sem rumo, que tinham a escuridão da noite e com a invasão nem mais isso lhes era garantido plenamente. O homem, então, facilitou a abrangência de reinação e exploração dos espíritos, desrespeitou os valores, as leis, as regras e ignorou os limites da vida incrustada na morte, dando plena e total “liberdade” aos espíritos.
Não houve mais discernimento entre dia e noite. O homem excepcionalmente achou que havia dominado ambas as fases do tempo e não se deu conta que, na verdade, cedeu seu espaço exclusivo – aquele iluminado - para os dominadores da escuridão.
No princípio, o tempo de permanência da noite era enorme, de maior extensão que o dia, só que se tornava menor enquanto os seres vivos dormiam na esperança de que os espíritos (os deuses e os demônios, além de outros insignificantes) não anulassem o dia e o tornassem ainda mais curto, enquanto a pérfida noite avançaria e acorrentaria eternamente.
Mas, como já foi dito, as coisas mudaram, o tempo mudou muito e especificamente um demônio ou para os simpatizantes um deus, se revoltou contra o avanço do humano sobre a noite. Por que o ser humano além de dominar o dia deveria dominar também a noite ou todo o tempo? Então, esse ser, passou a odiar as atividades humanas, a quebra de limites e a invasão sobre os domínios escuros.
Porque no princípio, na verdade, tudo era escuridão. Tudo era noite e não existia dia, nem luz. Entretanto, um deus superior ordenou e criou um semideus, foi este que passou a odiar a invasão humana e que posteriormente recebeu o nome de Comedor de Madrugadas, visto que, fora criado para consumir a escuridão e assim criar espaços para a luz, para a ocorrência do dia. Esta criatura, demônio para alguns, deus para outros, passou a realizar tal tarefa também em nome da absolvição de um castigo que lhe fora atribuído, mas no fundo ele libertava e proporcionava a criação da vida a partir do favorecimento da luz.
E assim, com o passar do tempo, o devorador da escuridão, da noite plena, passou a regular sua abrangência de devastação da negritude, diante da rotação do tempo, de modo que estabeleceu uma medida quase exata à divisão do dia e da noite. Logo, o findar do dia representava exatamente o começo do existir da noite, enquanto representava também o início do consumo da noite pelo Comedor de Madrugadas, até o ponto em que ela não mais existia e a luz voltava a brilhar. Era dia!
Só que, por causa do avanço desordenado do homem sobre a noite, suas manipulações e tantos outros prejuízos que a ela causou, fizeram com que o Comedor de Madrugadas se revoltasse e, seguindo o exemplo dos humanos, rompeu e desrespeitou os limites, as regras, as leis e os estabelecimentos de ordens naturais e sobrenaturais.
Ele passou então, a devorar cada vez mais a noite, sem com isso proporcionar luz (devido ao horror) nem abertura para a bondade e assim a tornou pequena demais para que o humano pudesse descansar, repousar ou simplesmente dormir. Por isso, o Comedor de Madrugadas não devora, isto é, não absorve mais a noite regularmente como estava ordenado, mas a sorve sempre que sente-se prejudicado pelo homem e seus inventos excêntricos.
O Comedor de Madrugadas estourou todos os limites estabelecidos pelo deus superior e pelos humanos, porém não foi mais castigado ou punido, porque apresentou e acusou o humano como réu na quebra das leis e dos valores, até as do tempo e assim foi absolvido plenamente e ganhou liberdade para explorar trevas ou luz sempre que quisesse, sendo que, com isso, diminuía cada vez mais a liberdade do humano para aproveitar o tempo, já que este perdeu o pouco domínio que detinha sobre o mesmo, ou seja, o domínio para viver essencialmente e naturalmente.
O buraco no qual a humanidade se jogou é profundo e talvez extremamente irreversível, pois para muitos homens não mais há diferenciação entre dia e noite e para a grande maioria dos seres humanos quebrar regras e limites é natural, comum. A civilização encarnou que desrespeitar e dilacerar valores edificados outrora, além de subestimar e esgotar a natureza é coisa simples e inconsequente, quer dizer, não causa danos a nenhuma das partes. Engana-se, porque tudo que é feito, isto é, tudo que se efetiva através de uma ação, mais tarde, trará uma reação (esta poderá ser positiva ou  não presumível).
No futuro, este chegará ainda mais certo que o presente, os humanos se darão conta que se perderam em meio às deturpações, os dilaceramentos e os prejuízos causados a ele mesmo, a natureza e a todo o Cosmo. Talvez o Comedor de Madrugadas se torne apenas uma lenda, um mito, porém, terá sem dúvida, deixado seu rastro de destruição em nome da pouca fidúcia, da falta do mínimo de respeito ao mundo como um todo, e da estereotipação do humano por ele mesmo. E então, os homens não se perguntarão ou se preocuparão em estudar ou querer descobrir os seres extraterrestres, uma vez que, felizmente ainda conservarão a lucidez e o discernimento entre terrestre e não terrestre, entre humano e não humano, pois chegarão ao estágio de desumanidade e se darão conta que eles mesmos são os extraterrestres, pois aniquilarão a terra e serão indignos de pertencer a ela.
JaloNunes.

Cenas e tramas alusivas ao Comedor de Madrugadas.